quinta-feira, 27 de outubro de 2022

Paróquia no Rio de Janeiro denuncia ameaças de bolsonaristas


Fiéis da Paróquia Nossa Senhora do Desterro, em Campo Grande, Rio de Janeiro, divulgaram, nesta quinta-feira (27/10), uma carta aberta em que denunciam ameaças de apoiadores da campanha do presidente Jair Bolsonaro (PL) contra a Igreja Matriz. No texto, entre outros pontos, eles destacam: “Igreja não é palanque!”

Direcionada aos juízes do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e a “todas as pessoas de bom coração”, os fiéis da paróquia relatam que, desde o último dia 22/10, os eleitores tentam “invadir o espaço da igreja, no intuito de montar base para um comício eleitoral”. O evento foi realizado nesta quinta (27/10).

Segundo o texto, no último final de semana, uma comitiva de cerca de dez pessoas foi à paróquia em uma tentativa de, “a todo custo falar com o padre, que não estava em horário de atendimento”. A conversa seria para montar uma base de apoio ao evento no local. Pedido, esse, negado.

Os fiéis contam que os atos ameaçadores começaram após a negativa. Na quarta (25/10), as grades e as árvores da Praça Dom João Esberard, local à frente da igreja que estaria sendo ocupado pelos apoiadores, foram derrubadas.


A derrubada das grades será apurada por autoridades policiais. A Prefeitura do Rio confirma, em nota, “que trechos da grade que circundam a Praça Dom João Esberard, da Paróquia Nossa Senhora do Desterro, em Campo Grande, foram retirados, sem o conhecimento e a necessária autorização da Prefeitura, o que pode configurar dano ao patrimônio municipal, na forma do artigo 163 do Código Penal”. O texto também relata que os funcionários da igreja foram hostilizados por bolsonaristas, e que, os clérigos estão “acuados, com receio da não-garantia do seu direito de ‘ir e vir'”.

Leia a carta na íntegra: “Aos Srs. Juízes do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e a todas as pessoas de bom coração, Nós, alguns dos fiéis católicos na condição de paroquianos da Paróquia Nossa Senhora do Desterro (Vicariato Episcopal Campo Grande, Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro) e demais pessoas de bom coração, gostaríamos de indicar os atos ilícitos de apoiadores do Sr. Jair Messias Bolsonaro, que, de maneira grotesca e ameaçadora, estão, desde o dia 22 de outubro de 2022, tentando invadir o espaço da Igreja Matriz Nossa Senhora do Desterro, no intuito de montar uma base para um comício eleitoral que está agendado para o dia 27 de outubro de 2022, sendo realizado na Praça em frente a Igreja Matriz.


Não obstante, quando no último dia 25 de outubro de 2022, no qual celebramos o Dia da Democracia em nosso país, o espaço da Praça Dom João Esberard – localizada em frente ao referido templo religioso – foi ocupado por apoiadores do Sr. Jair Messias Bolsonaro; as grades que circundam a Praça e as árvores foram derrubadas – sem aparente autorização da Prefeitura do Município do Rio de Janeiro, fato que ainda está sendo apurado. Essas mesmas pessoas, estão assediando moralmente os religiosos que são responsáveis pela Igreja Matriz e lá residem. Os três clérigos católicos a que nos referimos, estão acuados, com receio da não-garantia do seu direito de “ir e vir” livremente, como consta na nossa Carta Constitucional de 1988. Funcionários da Igreja Matriz também estão sendo hostilizados. Estão erroneamente associando o nome da organização religiosa ao comício eleitoral, sendo que não houve nenhum apoio por parte dos religiosos da Paróquia, sobretudo do pároco (autoridade eclesial local), ou da Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro (autoridade eclesial superior).

Solicitamos providências contra a candidatura do Sr. Jair Messias Bolsonaro, que, por meio de comício eleitoral, tornou hostil a Praça pública, que é o único acesso físico a Igreja Matriz, impedindo assim a realização segura das atividades litúrgicas e demais obras sociais que são cotidianamente realizadas em nossa Comunidade Eclesial. Juntamente a isso, dentro das possibilidades jurídicas, solicitamos também uma retratação pública da candidatura do Sr. Jair Messias Bolsonaro, cuja ação eleitoral impossibilitou a liberdade de culto na Igreja Matriz.


Ações como essas, que associam a Igreja Matriz a determinados políticos ou partidos, além de serem infundadas, são contrárias a nossa fé:

“(…) o diabo o levou a um monte muito alto, mostrou-lhe todos os reinos do mundo e a glória deles, e disse lhe: Tudo isto te darei, se, prostrado, me adorares” (Evangelho segundo São Mateus 4, 8-9).Fazer indevidamente uso político-partidário do nosso credo religioso é uma difamação a nossa Igreja Matriz e um completo desrespeito aos nossos princípios doutrinais. Enquanto a candidatura do Sr. Jair Messias Bolsonaro alega constantemente que seu adversário político vai promover o “fechamento de igrejas”, é efetivamente a ação de sua campanha eleitoral, que aqui denunciamos, que acarretou fechamento temporário do templo religioso, que existe há quase 270 anos e se localiza na região central do bairro de Campo Grande, na cidade do Rio de Janeiro (RJ).

Instrumentalizam a fé, limitando a realização segura de atividades de nossa Comunidade Eclesial. Nossa religião nos ensina que a mistura de política com fé perverte o sentido autêntico da religiosidade da Igreja Católica Apostólica Romana. 


O que ocorre nas proximidades da Igreja Matriz evidencia o quanto essa relação é danosa para a instituição religiosa e para os fiéis: “Dai, pois, a César o que é de César e a Deus o que é de Deus” (Evangelho segundo São Mateus 22,21).

Nos solidarizamos com nossos irmãos de fé e com os clérigos que atuam e residem na Igreja Matriz Nossa Senhora do Desterro – a saber: Padre João Lucas Barbosa Alves, ss.cc. (pároco); Padre Ricardo Gomes da Silva, ss.cc. (vigário paroquial); e Diácono Vitor Henrique Borges, ss.cc. De igual modo, rezamos também pelos funcionários que trabalham na referida Igreja. Há 90 anos, a Congregação dos Padres dos Sagrados Corações de Jesus e de Maria e da Adoração Perpétua ao Santíssimo Sacramento do Altar é responsável direta pela administração da Igreja Matriz Nossa Senhora do Desterro e esse tipo de insegurança nunca fora testemunhado pelos vários clérigos que por aqui passaram.

Endossamos o que pela fé já conhecemos e defendemos: IGREJA NÃO É PALANQUE! Unidos em oração e desejosos de justiça, denunciamos aqui o ocorrido.”

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